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Entrevista: Nílcea Trigo fala da Inclusão Social para Deficientes

Graduada em Fisioterapia pela Universidade de São Paulo (USP) em 1978, Nílcea Custódio Trigo trabalhou, ao longo de sua carreira, principalmente na área de  Neurologia Adulto e Infantil. Com uma vasta experiência na área, tem dedicado a sua vida a tratar e reabilitar pessoas com deficiência. Trabalha desde 2001 na Prefeitura Municipal de Barueri onde iniciou como parte integrante da Equipe de Reabilitação da Secretaria de Educação que implementou a Inclusão Escolar da Criança com Deficiência no Município. Atualmente é responsável pelo setor de Fisio Motora no Ambulatório de Órteses e Próteses na concessão de equipamentos de Tecnologia Assistiva da Secretaria dos Direitos da Pessoa com Deficiência de Barueri, criada em 2010.

Trigo trabalhou em S. José dos Campos, SP,  no inicio de sua carreira na área de Pneumologia, em Juiz de Fora, MG , como Fisioterapeuta em Neurologia na Associação de Pais e Amigos dos Excepcionais (APAE) por dois anos consecutivos, foi responsável pela avaliação, atendimento e orientação dos pacientes da Unidade. De 1994 a 2002, prestou serviços para a  Neuroclin, corporação médica com várias especialidades na área da saúde em Osasco,SP,  onde trabalhou com atendimento em Neurologia e Ortopedia de pacientes adultos e infantis. Em 2001 assumiu o cargo de Fisioterapeuta na Prefeitura Municipal de Barueri, onde trabalha desde então neste segmento.

Aproveitando a oportunidade de sua vinda à BUDAI para dar uma palestra aos gestores sobre a importância da inclusão da pessoa com deficiência no mercado de trabalho orientando-os a como proceder em situações diversas, aceitou nos conceder uma entrevista para falar de sua experiência e do trabalho que é realizado para evitar a discriminação, priorizando a inclusão social.

Budai News Sra. Trigo, em toda sua carreira profissional como Fisioterapeuta, imaginamos as mais variadas situações delicadas que tenha enfrentado quando o assunto é inclusão social de pessoas com deficiência e tratamentos físicos e psicológicos sofridos por eles. Há algum caso especial que tenha considerado como uma lição de vida e que serviu como uma motivação maior para dar continuidade aos seus trabalhos?
Nilcea Custódio Trigo
- As experiências ao longo de minha vida profissional são tantas que fica difícil eleger uma. Porém, quando me lembro da situação social em que viviam meus primeiros pacientes, há mais de 30 anos, percebo que avançamos bastante. Finalmente um conjunto de fatores como leis, ações sociais públicas ou privadas, etc., estão fazendo com que a pessoa com deficiência seja cada vez mais vista como um cidadão, com direitos e deveres adequados às suas necessidades e possibilidades. Costumo dizer que o sorriso no rosto da criança ou de seus pais ao adquirir uma nova habilidade, a alegria do paciente ao ser valorizado e compreendido na sua realidade são as coisas que sempre me impulsionaram.

BN – Mesmo com a grande quantidade de informações que podemos encontrar hoje pela internet, TV, rádio e outros meios, ainda assim falta uma comunicação mais ampla para este público, que muitas vezes deixam de utilizar diversos recursos do Governo Federal por não conhecerem os seus direitos como cidadãos portadores de deficiência. Como é realizado este trabalho de abordagem e divulgação para que eles tenham acesso a essas informações?
NCT -
Existem as políticas públicas que tratam desta questão. Hoje, em Barueri   assim como em outros municípios, estão sendo criadas Secretarias específicas para esse público na intenção de agregar num só lugar todas as referências necessárias para a pessoa com deficiência. Cada vez mais esses são os lugares onde procurar informações sobre as questões da deficiência. Mas também creio que multiplicar o conhecimento e ajudar, em nosso âmbito social, a dirimir dúvidas nessa área seja uma ação de cada um de nós.

BN – Para as pessoas com deficiência que tem passado por um processo de inclusão social desde a infância, há uma diferença entre este portador para aquele que está ingressando agora na fase adulta? Quais as dificuldades nos dois aspectos – o dele para tentar compreender tudo o que acontece ao redor e o da própria sociedade que ainda tem dificuldade em se adaptar?
NCT - Como digo nas conversas que temos tido nas empresas que visitamos, uma parte da dificuldade no relacionamento com a pessoa com alguma deficiência se dá pela ausência de conhecimento. O ser humano tende a rejeitar aquilo que não conhece. Então, a meu ver, mais que o combate ao preconceito, a informação é a ferramenta vital para melhorar a interação entre eles e, portanto incrementar a Inclusão Social da pessoa com deficiência. Lógico que, quando se trata dos direitos à cidadania do outro, as relações entre as pessoas muitas vezes entravam nas questões culturais e de formação de cada um. Aquele que já não respeita o outro tenderá a ter mais dificuldade quando se trata de respeitar o direito da pessoa com deficiência, apesar das leis. É só notar quantas pessoas ainda persistem usando vagas de deficiência nos estacionamentos “só por um minutinho”.

BN –Explique como começou o seu trabalho na região como integrante da equipe multidisciplinar da Secretaria da Educação  e a evolução deste segmento nos últimos anos.
NCT
- Ingressei na Prefeitura de Barueri num departamento da Secretaria de Educação que estava iniciando o processo de Inclusão Escolar da criança com deficiência. Meu trabalho como fisio dentro do ambiente escolar tinha uma abordagem completamente diferente da clínica a que eu estava acostumada. Com relação a essa minha fase tenho anotações no blog: fisioterapiaeinclusao.blogspot.com onde ao longo de alguns anos pude dividir algumas reflexões sobre o meu trabalho. Agora, com a criação da Secretaria dos Direitos da Pessoa com Deficiência e no meu trabalho no Ambulatório de Órteses e Próteses tenho podido participar da Inclusão Social desses indivíduos de uma forma mais ampla, não só concedendo equipamentos como também conscientizando, encaminhando, orientando, ensinando, o que, aliás, é muito prazeroso para mim. Hoje podemos dizer que já avançamos. Muito ainda precisa ser feito mas costumo dizer que a Inclusão é um processo de múltiplas frentes e muito, mas muito trabalho. Estamos no caminho e a adesão de todos a essa causa poderá fazer a diferença.

BN – Além da rejeição da sociedade que teima em fechar os olhos para este público, quais os outros fatores que podemos considerar como discriminação?
NCT -
Basicamente, em minha opinião, quando falamos em preconceito falamos em falta de conhecimento. Você não precisa ser um especialista, mas não ter medo nem vergonha de se aproximar, procurar conhecer, se relacionar com a pessoa com deficiência já é um passo. Tudo isso sem esquecer que a cidadania que queremos para nós também se refere a elas, sem paternalismos nem superproteção, simplesmente por direito.Outra coisa é a efetivação dos direitos já adquiridos por elas. Como já disse, respeitar as regras que já existem como vagas em estacionamento, zelar pela acessibilidade já conseguida, etc. são coisas que qualquer cidadão pode assumir e já estará ajudando bastante.

BN – Quais as maiores dificuldades encontradas pelas pessoas com deficiência ao ingressarem no mercado de trabalho? E as dificuldades das Organizações? Estas precisam treinar seus colaboradores para que haja uma inclusão harmoniosa?
NCT
- Além da parte mais administrativa que não é minha área, penso que a disposição que se tem para qualquer coisa é o que deveria mover tanto gestores quanto colaboradores de qualquer empresa. Há várias maneiras de se trabalhar essa questão e variam muito conforme o perfil da empresa, mas todas elas passam por um fator único que é o “estar disponível para”. Nada que seja feito de fora para dentro ou de cima para baixo irá ter o sucesso que esperamos. Daí, a meu ver,  a  conscientização em pequeno grupos, um trabalho mais individualizado, mais criativo,  ter mais chances de sucesso.

BN – Sabemos que existe uma línha muito tênue entre direitos e deveres das pessoas com deficiência. Como é explicado a eles todo este processo para que eles entendam sem se sentir ofendidos ou reprimidos?
NCT
- Todos gostam de ter direitos. Já assumir os deveres é um pouco mais complicado, não é? Assim também com as pessoas com deficiência. Mas, como já disse, o processo inclusivo em que nos encontramos como sociedade  demanda que estejamos sempre prontos a orientar, ensinar , muitas vezes até exortar (incentivar), para que essas pessoas que até bem pouco tempo viviam de favores e da compaixão alheia,  assumam sua cidadania completamente, com seu bônus e também seu ônus.